Um blog de Moda e História

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Essa "coisa" chamada moda que acaba "coisando" a gente

O filme Diabo Veste Prada (Fox 2000 Pictures , 2006) nos apresenta dois universos paralelos, primeiro conhecemos Andy Sachs uma moça recém formada em Jornalismo que procura, ansiosamente, o primeiro emprego, deste modo é chamada para uma entrevista numa das revistas de moda mais influentes do mundo, a Runaway Magazine . É preciso ressaltar que Andy não tem um bom relacionamento com a moda, pois ela vê o culto pela moda como besteira ou até mesmo frescura (Quem nunca conheceu uma Andy que acha que o jeito de se vestir não implica em nada, que atire a primeira pedra)
O choque entre esses dois mundos é imediato, Andy acha todo esse glamour desnecessário, acha patético aquelas mulheres serem tão magras e andarem sempre com saltos altos e tão bem arrumadas. Para piorar a situação, Andy é contratada como secretária da diretora da revista, a implacável/temida (e chic) Miranda Priestly.

A estratégia de Andy é passar um ano no emprego para poder ganhar visibilidade no mercado editorial, e lógico não se converter numa "Clake's" ( nome que a protagonista inventou para as moças que lá trabalham). Em determinado momento do filme, a secretária esta acompanhando uma pré produção de um ensaio fotográfico, ao decorrer da montagem de figurino, a protagonista assiste a dúvida e o sofrimento de uma das produtoras que tem dois cintos azuis na mão e não sabe qual usá-lo ( Andy dá uma risada, soltando toda a sua ironia, já que para ela os dois cintos eram azuis e só), Miranda a olha dos pés a cabeça e diz : (para piorar Andy esta usando um suéter azul)

Miranda – Algo engraçado?
Andy – Não, nada. É que para mim estes dois cintos são iguais. Sabe, eu ainda estou aprendendo sobre esta... "coisa".
Miranda – Esta “coisa”? Ah, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você abre o seu guarda-roupa e pega, sei lá, um suéter azul todo embolado porque você está tentando dizer ao mundo que você é séria demais para se preocupar com o que vestir. Mas o que você não sabe é  que esse suéter não é somente azul. Não é turquesa. É cerúleos. E você também é cega para o fato de que, em 2002, Oscar de la Renta fez uma coleção com vestidos somente nesse tom. E eu acho que foi Yves Saint Laurent, não foi? Que criou jaquetas militares em cerúleos. Eu acho que precisamos de uma jaqueta aqui. Então o cerúleos começou a aparecer nas coleções de muitos estilistas. E logo chegou às lojas de departamentos. E acabou como um item de liquidação nessas lojinhas de beira de esquina. E foi assim que chegou a você. Sem dúvida, esse azul representa milhões de dólares em incontáveis empregos. E é meio engraçado como você acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda, quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala entre uma pilha de “coisas”.
( O Diabo Veste Prada, Fox 2000 Pictures, 2006. 23 min. e  12 seg. a 24 min. e 25 seg.)

Esse trecho é essencial para entendermos o caminho que as roupas ou as inspirações fazem da passarela aos consumidores e também para compreendermos como nós , querendo ou não, estamos englobados nessa indústria da moda que gasta milhões, mas arrecada bilhões.
A loja de departamento surge como conseqüência da Revolução Industrial, essas lojas não transformam só a produção de massa, mas também no modo de consumir e a maneira como as pessoas começam a se relacionar com aquele tipo de mercadoria . Segundo Rocha e Amaral,

A loja de departamentos esteve, desde seus primórdios, alicerçada na
força da imagem. Nesse sentido, podemos pensá-la como espaço físico,real, concreto, local de trocas de fluxos e de objetos, responsável por reformular por completo as representações do comércio e o lugar de quem compra. Ela vai se desenvolver para vender os novos padrões de beleza e sucesso e, para tanto, deve construir a sua própria imagem. Avançando essa idéia, podemos relacionar a configuração da instituição loja de departamentos com a criação e o treinamento desse novo sujeito/observador/ consumidor. Isso não só pela própria natureza do seu formato funcional, pelo vínculo com a imagem, pelas características disciplinadoras,mas também pela noção de prazer e entretenimento, que passa a ser instaurada e associada à experiência do consumo. Formam-se, assim,
as posições que iriam povoar o ambiente de consumo na modernidade:
controle e prazer.(ROCHA, Everardo; AMARAL, Maria. Consumo e entretenimento: a loja de departamento como espaço de sociabilidade (1830 - 1930).  Comunicação, Mídia e Consumo, vol. n.17. nov. 2009, pag. 150.)


Com o crescimento dessas lojas, as polêmicas foram gerando, principalmente sobre como é feita a produção das peças, muitos acusam a falta de acabamento ou mesmo os tecidos de má qualidade. Mas o grande trunfo das lojas de departamento é o imaginário, visto que essas lojas dão ao consumidor a ilusão que estão vestindo roupas que aparentam ser de marca, dando a pessoa um requinte ao estilo e até mesmo uma ideia de status.
Atualmente, as lojas de departamento é detentora da maior parte dos consumidores de vestuário no Brasil, assim elas precisam abarcar o maior número de estilos de roupas, em uma loja vemos moda para a noite, dia a dia, mulher moderna, grávidas e assim por diante. Cada vez mais, essas lojas precisam dessas versatilidades, pois estamos numa época em que podemos acompanhar de perto as tendências das passarelas, o público se torna mais exigente, as lojas de departamento são obrigadas a oferecer requinte, qualidade e o mais impossível, exclusividade, a saída foi as parcerias das principais lojas de departamento do país com grandes marcas ou estilistas ( o que vem acontecendo com muita freqüência). O que percebemos aqui é que a técnica de propaganda não mudou muito, pois agora temos algumas peças que dão alusão que são exclusivas, mas na verdade existem milhares de roupas iguais vendidas em milhares de lojas de departamento.
Recentemente, a Loja Riachuelo foi a primeira a quebrar o paradigma entre o luxuoso e o popular, esteticamente e concretamente, uma vez que construiu uma de suas unidades na rua Oscar Freire em São Paulo( a rua é dita como luxuosa, pois só havia lojas de marcas lá) para dar mais repercussão a inauguração, a loja também criou o "Riachuelo Fashion Five", no qual fez parceria com diversos estilistas e personalidades da moda, tais como Helô Rocha, Dudu Bertholini, as it girls Camila Coutinho e Thássia Naves.

Aqui em Uberlândia, a coleção chegou ( não acredito em milagres e sim na força de Thassinha e sua rede de relações) e por incrível que apareça a sua coleção foi uma das mais bonitas, (principalmente o vestido) só que esgotou rápido. Na loja do shopping possui algumas peças do estilista Robert Forrest, Helô Rocha e Dudu Bertholini e também os shorts da coleção da Camila Coutinho.

Por mais que tenha sido uma reflexão rápida sobre um fenômeno que não para de crescer e que possuiu milhares de implicações para pensarmos mais sobre, o propósito desse texto era mostrar um pouco o movimento das lojas de departamento em nosso dia-a-dia e como esse movimento vem repleto de inspirações ou mesmo cópias, e que a simples escolha entre uma blusa azul com mangas e uma regata verde diz mais sobre nossa personalidade do que imaginamos.

Como diria Miranda; isso é tudo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário